Quando Santo Tomás de Aquino organiza as quatro virtudes cardeais — prudência, justiça, fortaleza e temperança —, ele não está inventando uma lista nova. Está recebendo, com plena consciência da origem, um esquema que remonta a Platão, que já as descrevia como as quatro virtudes fundamentais da alma justa no livro quarto da República, escrito por volta de 380 antes de Cristo.
De Atenas a Milão
O termo "cardeal" — do latim cardo, dobradiça — é, na verdade, uma cunhagem cristã posterior: foi Santo Ambrósio de Milão, no século quarto, quem primeiro descreveu essas quatro virtudes filosóficas como as "dobradiças" sobre as quais gira toda a vida moral, um nome que se consagrou desde então. Santo Agostinho, discípulo espiritual de Ambrósio, aprofunda essa recepção ao reler as quatro virtudes platônicas à luz do amor de Deus: para ele, a própria essência de cada virtude cardeal é, no fundo, uma forma diferente de amar a Deus — a temperança é o amor que se guarda íntegro para Ele; a fortaleza, o amor que tudo suporta por Ele; a justiça, o amor que só a Ele serve; a prudência, o amor que discerne com sabedoria o que O aproxima e o que O afasta.
O que a razão sozinha não podia alcançar
Se as quatro cardeais vêm da filosofia grega, as três teologais — fé, esperança e caridade — não têm paralelo algum na ética antiga, e por uma razão precisa: nenhum filósofo pagão, por mais sábio, poderia conceber uma virtude que tivesse o próprio Deus Trino por objeto direto, porque isso exige uma revelação que a razão sozinha jamais alcançaria. São Paulo é quem primeiro reúne as três num só versículo — "Agora permanecem estas três: a fé, a esperança e a caridade" (1Cor 13,13) —, e Santo Tomás, na Suma Teológica (I-II, q. 62), explica por que eram necessárias: o homem foi destinado, pela graça, a um fim que ultrapassa infinitamente a sua natureza — a visão de Deus face a face —, e nenhuma virtude adquirida pelo próprio esforço, por mais elevada, poderia dispor a alma para um fim tão além de si mesma. Só um dom poderia fazer isso.
Assim como o fim natural do homem é proporcionado à sua natureza racional, também para o fim sobrenatural, que excede a capacidade da natureza humana, é necessário que o homem receba de Deus algumas disposições sobrenaturais, pelas quais seja disposto convenientemente àquele fim.Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II, q. 62, a. 1
Sete, não quatro nem três
É essa síntese — quatro virtudes recebidas de Atenas, purificadas por Ambrósio e Agostinho, e três virtudes reveladas que nenhum filósofo jamais imaginaria — que forma o número sete, tão caro à tradição espiritual quanto os sete vícios capitais que lhes fazem oposição indireta. Não é coincidência querida pelos teólogos medievais: é o resultado de séculos em que a Igreja recebeu o melhor da sabedoria humana disponível, sem descartá-la, e a completou com aquilo que só a revelação poderia trazer. Entender essa dupla origem — filosófica e revelada — é entender por que a vida moral cristã nunca opôs fé e razão: pediu à razão o que ela sabia dar, e a Deus o que só Ele podia dar.