São João Crisóstomo, bispo de Constantinopla no final do século quatro e um dos maiores pregadores da história da Igreja — seu apelido significa literalmente "boca de ouro" — dedicou várias das suas homilias a um aspecto da inveja que a distingue de todos os outros vícios capitais: ao contrário da gula, que ao menos oferece prazer no momento do excesso, ou da luxúria, que promete um deleite imediato, a inveja não proporciona gozo algum nem sequer a quem a sente.
Um tormento sem recompensa
Nas suas homilias sobre a Epístola aos Romanos, Crisóstomo observa que o invejoso sofre duas vezes: sofre com o próprio infortúnio, como qualquer pessoa, e sofre também — de forma ainda mais amarga — com a boa sorte alheia. É um tormento que se autoalimenta sem nunca satisfazer, porque o objeto da inveja não é algo que o invejoso deseja possuir de fato, mas simplesmente que o outro deixe de possuir. Por isso Crisóstomo a considerava, entre todos os vícios, o mais irracional e o mais autodestrutivo: nenhum benefício real chega a quem a alimenta, apenas um consumo lento e constante da própria paz.
Nada há mais miserável do que os que invejam: fazem do mal alheio a sua própria dor.São João Crisóstomo, Homilias sobre a Epístola aos Romanos
Caim: o primeiro caso clínico
A Escritura já havia registrado, muito antes de Crisóstomo, o retrato mais completo desse mecanismo destrutivo: Caim, ao ver que a oferta de seu irmão Abel agradara mais a Deus do que a sua própria, não voltou seus esforços para melhorar a sua oferta — voltou-os para eliminar aquele cuja bênção o atormentava (Gn 4,3-8). É um padrão que Crisóstomo identifica repetidamente na sua própria congregação, dezessete séculos depois: a inveja raramente nasce da falta real de algo; nasce da presença incômoda de alguém que tem o que, no fundo, nem era tão desejado assim — até que o outro passou a tê-lo.
O remédio segundo a caridade paulina
A resposta cristã a esse tormento não é a simples supressão do sentimento — Santo Tomás de Aquino reconhece que a primeira reação de tristeza diante do bem alheio pode ser involuntária, e portanto não culpável em si mesma. O remédio verdadeiro está em transformar deliberadamente essa tristeza em ação contrária: rezar pelo bem de quem se inveja, algo que a natureza jamais faria sozinha, mas que a caridade — descrita por São Paulo como aquela que "não é invejosa" e que "se rejubila com a verdade" (1Cor 13,4.6) — torna possível. Crisóstomo recomendava, de forma prática, que o cristão tentado pela inveja fizesse o oposto exato do impulso natural: procurar ativamente elogiar, diante dos outros, a pessoa que desperta esse sentimento. Não por hipocrisia, mas como um exercício deliberado que, com o tempo, desarma o próprio vício pela raiz.